Crônica - Estrangeiro
Ah, meu Rio de Janeiro... Depois de tantas viagens retorno a minha cidade natal, mas se minha difícil sina é ser um estrangeiro contínuo em qualquer lugar que caminho, então melhor sê-lo por aqui, onde nasci, cresci e me perdi, pois serei, não sendo, enquanto formos todos, não indo! Aqui onde o mar perfuma a existência e meu corpo se enrosca em ondas perenes, bailarinas de flutuante elegância. Cidade maravilhosa, minha musa imortal, amante mendiga de corpos morenos sedentos de luz, prazer genial e principal lazer de tantos irmãos do aqui e agora, dos que foram e que virão, pois aqui harmonizam-se tônicos, a vida, o sol e o mar. Faz calma no olhar, há nuvens esparsas no céu e um arco-íris que não dá, não dá pra acreditar. A tarde cai, o dia passa, minha cachaça é esta cidade que não sai de mim, não sai.
Oh, brisa, brisa repentina, brisa que brilha cristalina, no olhar que descansa, entre muitas andanças e tantas ofeganças, me leva, eu que criança estou, repleto em teu frescor, de mares e terras outras, todas ostras, pois pérolas de sonhos carregam, no sono, onde eu sou. Seja assim, seja assado, seja profano, seja sagrado, seja eu, seja você, sejamos nós unidos pela benção do nosso Cristo Redentor.
Vamos, meu irmão carioca, sorria, eu te amo, curta a vida, não reclame, fure a onda, voe longe, eu te canto em qualquer canto. Pule o muro, troque o disco, desfrute este balanço. Celebre, seja leve, dance a vida, seja a ginga do crioulo muito doido do meu samba. Como? Ora, vá à luta, com doçura, toque o sonho com o coração. Pinte o sete, faça um verso, componha uma canção. Ame, seja feliz, mesmo que seja, ainda mesmo, por um triz.
Peço aos deuses que te olhem, meu Rio de Janeiro, e iluminem o teu caminho, tão fadado ao desvio. Peço aos anjos que me guiem quando, chegada a hora mais imprecisa, perco o passo em desatino. Peço aos homens que se amem e que cresçam como amigos, pois na hora mais antiga da triste despedida, este é o tesouro que se leva desta vida.


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